O ministro da Fazenda, Dario Durigan, colocou o Brasil em uma posição relativamente favorável para enfrentar o choque global nos preços de energia, em manifestação encaminhada ao IMFC no âmbito das reuniões de primavera do FMI, em Washington. Ao mesmo tempo, apelidou o momento de delicado: a escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã ocorre quando a atividade mundial começava a ganhar algum fôlego, tornando a reação política e econômica mais complexa.
Durigan enfatizou que a compressão do poder de compra provocada pela alta de energia e alimentos tende a corroer a renda real e reduzir o consumo, fatores que podem atrapalhar o processo de desinflação em curso. Nesse cenário, ele apontou a combinação de atividade mais fraca com pressões inflacionárias como fonte de preocupação real sobre risco de estagflação, o que amplia trade-offs para bancos centrais e governos ao calibrar estímulos ou contenção.
No plano doméstico, o ministro citou fatores favoráveis: a inflação brasileira vem convergindo para a meta após política monetária mais restritiva, o que permitiu ao Banco Central iniciar um ciclo de flexibilização, e a matriz energética reforçada por renováveis e biocombustíveis aumenta a resiliência. Do lado externo, a alta do petróleo pode ampliar o superávit comercial — no ano passado petróleo e derivados responderam por cerca de 16% das exportações e 8% das importações, gerando saldo positivo em torno de US$ 32 bilhões — mas riscos logísticos e de oferta permanecem.
Durigan também advertiu sobre impactos desiguais: países de baixa renda e importadores de energia sofreriam mais, e possíveis restrições a fertilizantes ameaçam o agronegócio. Sua conclusão foi dupla: defender cooperação internacional e armar o FMI para monitorar segurança energética e alimentar; e recomendar que políticas macroeconômicas adotem caráter contracíclico quando houver espaço. A mensagem é clara para Brasília e para o mercado: o país tem amortecedores, mas o choque externo impõe decisões prudentes que equilibrem estabilidade de preços, atividade econômica e proteção a setores vulneráveis.