A relação clássica entre juros e preço de ativos foi testada nas últimas semanas: embora o rendimento do Treasury de dez anos tenha alcançado níveis não vistos desde 2007, as principais bolsas americanas conseguiram fechar a semana entre 21 e 25 de setembro em alta — Nasdaq +2,1%, S&P 500 +1,2% e Dow Jones +0,3%. A dinâmica mudou logo depois: ao subir para 5,241% no fechamento de 28 de setembro, o Treasury provocou queda dos índices, com S&P recuando 0,77%, Nasdaq 0,92% e Dow 0,67%.
Especialistas ouvidos apontam que o fator que tem segurado os preços das ações é a revisão para cima das expectativas de lucro, impulsionada, sobretudo, pela promessa de produtividade e receitas das big techs ligadas à inteligência artificial. Analistas alertam, porém, que esse apoio é condicional: se os juros continuarem subindo e os balanços deixarem de surpreender, o efeito amortecedor da IA tende a se esgotar.
Há outros elementos que complicam o quadro: a maior emissão de dívida por empresas de tecnologia disputa recursos com os títulos públicos americanos, enquanto o aperto de prazos longos reflete também preocupações fiscais e riscos geopolíticos. A sinalização do Federal Reserve, com aumentos marginais esperados, acrescenta incerteza sobre até onde a alta de yields será digerida pelos mercados de ações.
O Brasil não fica imune. Juros americanos mais altos aumentam a atratividade de ativos em dólar, pressionam o câmbio e podem elevar os juros futuros locais, reduzindo apetite por ações brasileiras. Do ponto de vista doméstico, isso amplia o custo político e econômico de qualquer relaxamento fiscal e limita a margem de manobra do Banco Central — fatores que o mercado terá de acompanhar de perto junto com os próximos balanços e decisões do Fed.