Em dois meses ficou claro o poder de fogo dos alimentos sobre a inflação. O grupo "Alimentação e Bebidas" subiu 1,33% em maio — respondendo por metade do IPCA de 0,58% — e recuou 0,24% em junho, contribuindo para a baixa mensal de 0,16%. Essa volatilidade chega num momento em que o El Niño já está estabelecido no Pacífico Equatorial e tem alta probabilidade de intensificação no segundo semestre, segundo alertas de instituições como a NOAA.

Os painéis meteorológicos, incluindo projeções do INMET, apontam para chuvas acima da média no Sul entre julho e setembro, precipitações menores no centro-norte e temperaturas elevadas em grande parte do país. A concentração da produção acentua o risco: o Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% do arroz nacional. Chuvas excessivas podem atrasar plantio, prejudicar colheita, deteriorar grãos e interromper estradas — efeitos que se transmitem rapidamente ao abastecimento nacional quando sete em cada dez toneladas vêm de um só estado.

O receio no Centro-Oeste é outro: janelas de plantio mais apertadas para a soja prejudicam a safrinha de milho, cujo preço é insumo para ração e impacta ovos, leite e carnes. O café, com base em Minas Gerais, depende de chuvas e temperaturas bem distribuídas na florada e no enchimento; um El Niño forte não garante que haverá quebras generalizadas, mas tende a ampliar a irregularidade em fases críticas. Há, porém, um amortecedor: a estimativa mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento aponta para uma safra 2025/2026 recorde, de 358,6 milhões de toneladas — suficiente para evitar desabastecimento amplo, mas incapaz de proteger todos os produtos de quebras regionais ou problemas logísticos.

O ponto central é administrativo e político: o país tem previsões, mas falha em convertê‑las em decisões econômicas e operacionais. Alertas climáticos que não alteram seguro rural, crédito agrícola, estoques estratégicos, calendários de plantio ou rotas de transporte permanecem meras informações. Se nada for feito, choques localizados podem reaparecer no atacado e chegar ao varejo, pressionando o IPCA e o bolso das famílias. A alternativa exige ação coordenada do governo e do setor privado para reduzir concentração de risco, reforçar logística e ajustar instrumentos financeiros antes que a próxima colheita se transforme em alta de preços.