O Ministério da Fazenda admitiu nesta quarta-feira (1º) que vai revisar para cima a projeção oficial de inflação para 2026, diante de um El Niño mais intenso do que o esperado. Em entrevista ao portal Jota, a secretária de Política Econômica, Débora Freire, disse que o fenômeno climático consolida um vetor altista para os preços e deve reduzir o arrefecimento que era projetado para o segundo semestre. A estimativa divulgada em maio apontava 4,5%; o governo agora trabalha com uma previsão que deve superar esse teto, embora fique abaixo da mediana do mercado — 5,33%, segundo o boletim Focus.

O avanço da projeção tem efeitos imediatos sobre a arquitetura macro: ultrapassar o teto da meta de inflação pressiona o Banco Central e complica a trajetória de juros real. A secretária também reconheceu que um cenário internacional com taxas mais altas e uma Selic mais elevada do que o previsto anteriormente tende a dificultar o crescimento em 2027. Apesar do ajuste na inflação, a Fazenda mantém a expectativa de crescimento do PIB em 2,3% para este ano, mas ressalta que os números ainda passam por avaliação e poderão ser calibrados antes da divulgação oficial.

No terreno fiscal, o governo insiste que o arcabouço implementado continua funcional e que a convergência da dívida ocorrerá no médio prazo, não já no próximo ano. Ainda assim, a combinação de inflação mais alta e juros potencialmente superiores aumenta o custo do serviço da dívida e torna mais exigente o cumprimento da regra que limita o crescimento real das despesas obrigatórias a 2,5% ao ano. Débora Freire destacou a necessidade de conter gastos obrigatórios e acelerar a formalização do mercado de trabalho para ampliar receitas previdenciárias — medidas que ganham urgência diante do novo choque de preços.

Politicamente, o ajuste de expectativa acende alerta sobre a narrativa oficial de consolidação fiscal e estabilidade macroeconômica. A revisão coloca pressão sobre a comunicação do governo e sobre a capacidade de articulação com o Banco Central e o Congresso para manter confiança dos mercados. Os números finais serão divulgados ainda neste mês; por enquanto, tratam-se de um retrato do momento, com repercussões diretas para política de juros, orçamento e a percepção de risco econômico do país.