O mercado não espera mais para reagir: a transição para El Niño em 2026 já está sendo precificada pela elevação da probabilidade do fenômeno. Modelos do IRI e da NOAA colocam a hipótese acima de 70% no inverno e próxima de 90% na primavera. Importa menos a chuva que vai cair em cada ponto do país do que o padrão de risco que se redesenha — onde haverá déficit, onde a variabilidade aumentará e onde picos intensos podem gerar escoamento em vez de armazenamento. Não há indicação, por ora, de um “super El Niño”, mas a simples mudança de probabilidade altera decisões de produtores, operadores e investidores.

O impacto geográfico é heterogêneo. Norte e Nordeste (com atenção a MATOPIBA e ao semiárido) enfrentam tendência a chuvas abaixo da média; Centro-Oeste vê janelas de plantio mais instáveis e risco de veranicos que comprimem soja e milho safrinha; Sudeste (sul de Minas e interior de São Paulo) combina déficit pontual com calor persistente, afetando café e cana; o Sul tende a chuvas acima da média, porém concentradas, aumentando perdas por excesso e problemas logísticos. A temperatura acompanha o redesenho, elevando evapotranspiração e estresse hídrico em culturas sensíveis. O resultado é uma redistribuição de perdas ao longo do território, não um vencedor claro.

A economia sente esse desenho antes da água cair. No setor elétrico, reservatórios nacionais aparecem em média em situação confortável, mas a fotografia esconde vulnerabilidades regionais: o Sul opera com níveis mais baixos justamente onde a hidrologia promete ser mais errática. Picos de chuva não se traduzem automaticamente em enchimento de reservatórios; geram escoamento e menor capacidade de regularização. O Operador Nacional do Sistema Elétrico tem antecipado o uso de termoelétricas e a elevação do custo marginal já aparece no PLD (Preço de Liquidação das Diferenças). A ANEEL, por sua vez, pode utilizar bandeiras tarifárias como sinal antecipatório — medidas que transferem risco para o bolso do consumidor antes que o debate público se intensifique.

Há consequências concretas e interligadas: pressão sobre preços de alimentos por quebras de produtividade e perda de qualidade (café, soja, milho, algodão), aumento da volatilidade no mercado físico de energia e efeitos secundários sobre a curva de juros, que passa a incorporar risco energético. Para o setor público, isso significa maior probabilidade de custos adicionais — subsídios, leilões compensatórios ou medidas tarifárias — que testam a disciplina fiscal. O ciclo de decisão do país tende a ser reativo; o desafio é converter a precificação do risco em políticas preventivas e articulação setorial, em vez de respostas tardias quando o reajuste já chegou à conta do consumidor.