O avanço do El Niño redesenha o mapa de risco do sistema elétrico brasileiro: a folga hídrica atual reduz a probabilidade de falta anual de energia em 2026, mas não elimina a exposição a custos mais altos e a interrupções pontuais. A vantagem dos reservatórios transforma-se em um seguro caro: acionar térmicas e preservar água hoje custa ao consumidor para reduzir o risco amanhã.

A principal mudança não é quantitativa, mas operacional. Mesmo com armazenamento confortável, afluências em queda valorizam a água acumulada e mantêm a bandeira tarifária ativada. Em 2026 o cenário mais provável é de operação onerosa e de episódios localizados de racionamento ou desligamentos por falhas de infraestrutura, não de apagões nacionais por falta de energia.

O problema se agrava ao olhar para 2027. Se a estação chuvosa for fraca, as margens de segurança de potência podem se estreitar justamente quando a demanda por refrigeração aumenta nas horas de ponta e a geração solar recua. Em vários cenários identificados pelo ONS há geração suficiente no país, mas a energia não chega ao destino por limites nas interligações — um risco que o El Niño intensifica.

Além do parque de geração, a vulnerabilidade está no 'último quilômetro': árvores sobre a fiação, transformadores sobrecarregados e subestações expostas a enchentes ou incêndios tornam as redes de distribuição o elo mais frágil. A consequência é política e econômica: famílias e empresas pagam pelo 'prêmio de seguro' agora e correm risco de enfrentar cortes localizados que terão impacto real na atividade e na percepção de serviço público.

A resposta exigida é técnica e regulatória. Distribuidoras precisam migrar da cultura do reparo para a da antecipação — automação de alimentadores, proteção de subestações, medição inteligente e manutenção preditiva. Ao mesmo tempo, reforços na transmissão e incentivos a baterias e usinas reversíveis (no médio prazo) são medidas que reduzem exposição, mas exigem decisões e investimentos cujos custos voltarão aos consumidores e ao balanço público.