O relatório do Goldman Sachs divulgado nesta quinta-feira coloca o Brasil entre as economias latino-americanas mais vulneráveis ao super El Niño. Com base em dados da NOAA, o banco projeta 98% de probabilidade de que o fenômeno se torne “muito forte” até o fim do ano — e que, historicamente, episódios assim atuem como choques de oferta que simultaneamente reduzem atividade e elevam preços.

Para o Brasil, a estimativa principal chama atenção: uma redução acumulada de 1,21 ponto percentual no PIB ao longo dos quatro trimestres seguintes ao início do El Niño — bem acima da média de 0,36 p.p. observada entre sete países da região. O mecanismo é claro no diagnóstico do banco: mudanças no regime de chuvas podem depreciar safras agrícolas e reduzir o nível de reservatórios hidrelétricos, afetando produção, energia e logística.

No campo da inflação, o impacto tende a se concentrar em alimentos. O estudo estima, em média regional, alta de 1,40 p.p. nos preços alimentares ao longo de um ano; para o Brasil, o Goldman Sachs cita o modelo do Banco Central que aponta cerca de 0,1 p.p. por trimestre no IPCA — entre 0,4 e 0,5 p.p. em um ano. Esse choques sobre itens sensíveis da cesta de consumo têm efeito direto sobre o poder de compra das famílias e sobre as expectativas de inflação.

O efeito combinado sobre crescimento e preços complica o trabalho do Copom. O próprio relatório ressalta que bancos centrais não reagem automaticamente a episódios climáticos: a resposta depende de credibilidade, das expectativas e do contexto econômico vigente. Ainda assim, para Brasil e Colômbia — onde o banco identifica inflação elevada e expectativas menos ancoradas — o cenário acende alerta e pode tornar os bancos centrais “ligeiramente mais defensivos” no curto prazo.

Do ponto de vista político e fiscal, o choque também traz implicações concretas: queda de atividade e alta de alimentos pressionam renda real, aumentam a sensibilidade social a preços e reduzem margem para manobras fiscais expansivas sem custo político. Para quem governa e para o mercado, o desafio é duplo — mitigar efeitos no curto prazo e preservar credibilidade das políticas macroeconômicas, tarefa que ganha urgência diante de um El Niño que, pelo histórico citado pelo Goldman, promete ser particularmente forte.