O calendário eleitoral de 2026 já deixou marcas nas mesas de operações, mas, segundo operadores e economistas, ainda não tomou a dianteira do risco no Brasil. Episódios como a queda superior a 4% da bolsa em 5 de dezembro de 2025 — quando a escolha de Flávio Bolsonaro como candidato do PL foi divulgada — e a retração de mais de 2% do Ibovespa em 13 de maio após reportagem sobre negociações envolvendo o pré-candidato mostram que a política pesa. Ainda assim, o diagnóstico consensual é que choques externos têm maior capacidade de mover os preços hoje.

A saída de recursos estrangeiros é um sinal concreto dessa sensibilidade. Dados compilados pela consultoria Elos Ayta indicam retirada de mais de R$ 9,64 bilhões da B3 desde o início de maio — o maior recuo parcial desde abril de 2024, quando o mês fechou com R$ 11,36 bilhões. Para analistas como Danilo Coelho, esse fluxo vendedor fez o Ibovespa recuar para a casa dos 173 mil pontos em alguns dias e revela que investidores internacionais vêm reduzindo exposição ao Brasil diante da combinação de incerteza política e menor apetite ao risco global.

Especialistas ouvidos destacam que o contexto externo e a dinâmica de juros elevam a vulnerabilidade local: em dias de pouca novidade no conflito entre Estados Unidos e Irã, as notícias domésticas eleitorais ganham relevância e passam a pressionar ativos, aponta Bruno Perri, da Dom Investimentos. No plano doméstico, a agenda fiscal permanece como fator estrutural — independente de quem vença — e tende a ser o principal critério de avaliação do mercado sobre o futuro do país.

Há, porém, um elemento novo que complica a gestão do ciclo informacional: a intensificação do uso de inteligência artificial nas campanhas, que acelera a circulação de notícias e pode amplificar movimentos de curto prazo, alerta Raissa Florence, da Oz Câmbio. Conclusão prática para investidores e formuladores de política: esperar volatilidade elevada nos próximos meses, com maior sensibilidade ao noticiário e possibilidade de maior custo de capital se a saída de estrangeiros se mantiver. Em resumo, as eleições começam a acender alerta para 2026, mas, por ora, são coadjuvantes diante do peso de fatores externos e da questão fiscal.