Os Emirados Árabes Unidos formalizaram a saída da Opep com vigência a partir de 1º de maio, segundo comunicado da agência WAM. A decisão amplia a reconfiguração do mapa energético global e eleva dúvidas sobre a dinâmica de oferta no médio prazo, mas não provoca, por si só, um choque imediato nos preços.

Para Carlos Primo Braga, professor da Fundação Dom Cabral, a ruptura já vinha sendo desenhada. Divergências com a Arábia Saudita — que precisa de patamares de US$80–90 por barril para fechar contas, enquanto os Emirados conseguem sustentação fiscal perto de US$50 — e a expansão da produção nos Emirados explicam a saída. O país já opera capacidade crescente, com potencial de atingir algo próximo de 5 milhões de barris por dia.

Mesmo assim, Braga ressalta que efeitos significativos sobre cotações devem demorar. No curto prazo, fatores logísticos e geopolíticos, como restrições no Estreito de Ormuz, limitam o escoamento adicional. Em cenário otimista, uma oferta global mais ampla só teria impacto pleno ao longo dos próximos anos — com projeções que apontam para avanços efetivos possivelmente até 2027.

Além disso, a lógica dos produtores fora do Oriente Médio também complica previsões: a expansão do shale nos EUA responde a preços mais altos, mas enfrenta entraves técnicos — refinarias americanas são ajustadas para petróleo mais pesado, enquanto o shale é mais leve — o que mantém fluxos comerciais complexos. A leitura política é clara: a saída dos Emirados altera a governança da Opep e impõe recalibração de cenários para inflação, combustíveis e contas públicas no médio prazo, exigindo atenção das autoridades e do mercado.