O Censo 2022 deixou um retrato incômodo das favelas de Salvador: oito em cada dez moradores vivem em ruas sem árvores, sete em cada dez não têm calçadas e metade reside em vias sem bueiros. São deficiências que afetam mobilidade, saúde pública e resiliência urbana — déficits que, na prática, mostram um vácuo de investimento público em áreas densas e populares.
Nesse vazio, o setor imobiliário tem assumido papel visível de agente de transformação. Na Bahia, a MRV passou a incorporar em lançamentos intervenções que ultrapassam o perímetro do condomínio: calçadas mais largas, arborização, drenagem e espaços de convivência. O Residencial Golf Riviera, em Vila Canária, tem 576 unidades em terreno superior a 9,6 mil m² e projeto paisagístico pensado para qualificar o entorno — uma abordagem que trata a edificação como peça de um sistema urbano maior.
O mercado tem respondido: o Parque dos Duques, primeiro lançamento do projeto Cidade Sete Sóis, vendeu 480 unidades em 30 dias (420 em 16 dias) e movimentou VGV de R$107 milhões. O segundo lançamento, Parque dos Condes, prevê 480 unidades distribuídas em terreno de 21.035,73 m², com calçadas de cerca de cinco metros. Os números validam a tese de que compradores de baixa e média renda também valorizam infraestrutura, segurança e qualidade de vizinhança.
Mas a expansão do protagonismo privado não elimina a responsabilidade do poder público. Mesmo quando construtoras executam benfeitorias, trata-se de ação fragmentada e dependente de lógica comercial. Há ganhos locais reais, porém riscos potenciais — como a exclusão de moradores de baixa renda se a valorização não vier acompanhada de políticas habitacionais e de mobilidade pública. A resposta eficaz passa por combinar incentivos privados, regulação clara e investimento público focalizado: só assim será possível traduzir intervenções pontuais em melhora estrutural e equitativa da cidade.