O quadro da renda das famílias brasileiras voltou a ser classificado como preocupante por especialistas: a inadimplência atingiu níveis recordes e a presença de apostas no orçamento doméstico ganhou peso relevante. Segundo a CNC, 81,6% dos lares têm algum tipo de dívida — cartão, cheque especial, carnês e outras modalidades — e levantamento do Serasa indica que mais da metade dos trabalhadores chega ao fim do mês sem dinheiro em caixa.
O fenômeno é resultado de décadas de expansão do crédito, que se acelerou após o Plano Real e sofreu saltos em crises recentes — a pandemia elevou a participação das famílias endividadas em cerca de 10 pontos percentuais. Com a Selic em 14% ao ano, o país ostenta um dos maiores juros reais do mundo, o que pressiona parcelas e aumenta a inadimplência quando a renda é comprimida.
Há ainda fatores que complicam a saída: o tamanho das despesas públicas e o nível de endividamento do Estado elevam o prêmio de risco e restringem o espaço para afrouxar a política monetária; além disso, choques externos e a alta dos combustíveis dificultam um corte rápido de juros. Nesse ambiente, o crescimento dos gastos com apostas — R$62,5 bilhões em 2025, segundo o Boletim Fiscal dos Estados — surge como um novo e visível peso nos orçamentos mais fragilizados.
Para além do impacto imediato no consumo e no bem-estar das famílias, o cenário tem implicações políticas e institucionais: limita a margem para estímulos, amplia a sensibilidade da economia a choques e exige respostas fiscais e sociais mais calibradas. Especialistas ouvidos pelo programa destacam que a combinação de juros altos, crédito acumulado e novos vazamentos orçamentários — como o ritmo das apostas — aumenta a vulnerabilidade da retomada e cobra estratégias públicas mais eficazes.