O endividamento das famílias brasileiras concentra-se, de forma mais aguda, entre os domicílios de menor renda e em modalidades de crédito sem garantia, com taxas elevadas, segundo análise da pesquisadora associada do FGV Ibre. A combinação entre juros altos e inflação tem corroído o orçamento das camadas mais vulneráveis, transformando instrumentos de pagamento rotineiros em armadilhas financeiras quando o saldo é rolado ou parcelado.

Cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais não consignados aparecem como os principais vetores desse efeito. Esses produtos, inicialmente concebidos para facilitar consumo ou resolver apertos temporários, acabam por gerar encargos elevados quando não são liquidados no vencimento. A pesquisadora destaca que o problema reside menos na existência do crédito do que no uso inadequado e na falta de planejamento ou compreensão das modalidades disponíveis.

Além do impacto imediato sobre o padrão de vida das famílias, o padrão de alavancagem observada tem implicações macroeconômicas: uma população altamente endividada reduz seu consumo diante de choques ou necessidade de desalavancagem, pressionando a atividade. O recuo do consumo por ajuste de dívidas já foi um fator relevante na recessão passada, e mantém-se como risco em um cenário de menor dinamismo econômico e políticas monetárias que deixam os juros elevados.

A saída, segundo a pesquisadora, passa por educação financeira sustentada e por políticas que ampliem alternativas de crédito mais baratas e com garantias adequadas. Do ponto de vista público, a situação exige atenção: níveis persistentes de endividamento entre os mais pobres pressionam as contas familiares e podem limitar a recuperação do consumo, exigindo medidas que conciliem proteção ao consumidor, inclusão financeira e incentivos à gestão orçamentária doméstica.