Relatório e entrevistas do Ibre/FGV indicam que o endividamento das famílias brasileiras consome hoje cerca de um terço da renda média, situação que tende a reduzir o consumo — motor central do PIB — e frear o ritmo de atividade econômica. Para o pesquisador João Mário de França, o quadro é agravado por juros muito altos em linhas destinadas a pessoas físicas e por inflação ainda acima do desejável, especialmente no caso dos alimentos.

O expert chama atenção para a diferença entre o custo de financiamento do setor público e das empresas e o crédito disponível às famílias. Enquanto governos e grandes tomadores acessam recursos mais baratos, muitos consumidores recorrem ao cartão de crédito rotativo e a outras modalidades com taxas extorsivas — a rotação do cartão ultrapassa os 400% ao ano em alguns casos — ampliando o risco de inadimplência e criando um ciclo de piora das contas domésticas.

Medidas pontuais já propostas, como permitir uso do FGTS para abatimento de dívidas, têm efeito temporário, na avaliação do Ibre. São paliativos que aliviam parte do problema no curto prazo, mas não alteram o perfil de consumo estagnado nem a dependência de linhas caras. Sem intervenções estruturais, a recuperação da capacidade de compra seguirá limitada.

A saída, segundo o pesquisador, passa por ações de médio e longo prazo: ajuste fiscal que contribua para reduzir os juros reais, políticas que ampliem o acesso a crédito mais barato e programas de educação financeira para evitar que famílias migrem para modalidades predatórias. Do ponto de vista político e econômico, o quadro exige respostas coordenadas; não fazê-las significa aceitar menor crescimento e maior vulnerabilidade social.