O endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,9% em fevereiro, segundo o Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central — o maior patamar da série histórica. O comprometimento da renda das pessoas físicas subiu para 29,7% no mês, avanço de 0,2 ponto percentual frente a janeiro e de 1,9 ponto em 12 meses, sinalizando aumento persistente da pressão financeira sobre domicílios.

A composição do comprometimento revela o peso dos encargos: 10,63% da renda familiar destinam‑se exclusivamente ao pagamento de juros, enquanto aproximadamente 19% vão para amortização do principal. Um foco particular é o cartão de crédito rotativo, cuja taxa média chegou a 428,3% em março — e cuja concessão somou R$ 109,7 bilhões nos três primeiros meses de 2026, alta de 9,7% frente ao período anterior (R$ 99,9 bilhões no 1º tri de 2025).

O governo federal monitora o problema e trabalha num pacote apelidado de 'Desenrola 2.0', que prevê uso de recursos do FGTS para facilitar renegociações. A proposta incluiria mecanismos que bloqueiem determinadas modalidades de crédito para beneficiários — numa tentativa de evitar que a solução vire estímulo a novas contratações de dívida cara, como o rotativo do cartão.

O quadro coloca desafios políticos e econômicos ao Executivo: reduzir o endividamento exige medidas que misturam custo fiscal, coordenação com setores financeiros e disciplina do consumidor. A operação com FGTS pode aliviar famílias no curto prazo, mas impõe custo ao fundo e exigirá comunicação clara para evitar perda de confiança e criticas sobre uso de recursos previdenciários. A alternativa estrutural permanece: crédito mais barato e maior ajuste de renda para reverter a trajetória de risco ao consumo.