O endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,9% em fevereiro, o maior patamar desde o início da série histórica, segundo o Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central. O documento mostra que 29,7% da renda familiar está comprometida com dívidas, alta de 0,2 ponto percentual em um mês e quase 2 pontos em 12 meses.

Do percentual comprometido, 10,6% da renda destina‑se apenas ao pagamento de juros e 19% ao principal. Analistas destacam que o uso crescente do cartão de crédito — cujos juros superam 400% ao ano, na avaliação citada pelo mercado — e do cheque especial, pela facilidade de contratação, tem transformado dívidas rotativas em uma ‘bola de neve’ que corrói o orçamento mensal.

O cenário é agravado pela atual taxa básica de juros, em 14,75% ao ano, e por pressões inflacionárias que, conforme o próprio analista consultado, caminham para encerrar o ano acima do teto da meta do BC. Medidas pontuais adotadas pelo governo, como o programa Desenrola e a isenção do IR para quem ganha até R$5.000, não têm sido suficientes: boa parte do ganho de renda extra é usada para pagar dívidas já existentes, não para reativar o consumo.

O quadro acende alerta para a política econômica: com consumo fragilizado e parcela elevada da renda comprometida, a recuperação do crescimento fica mais difícil e aumenta a necessidade de debate estrutural sobre acesso ao crédito, regulação dos juros rotativos e direção da política monetária. A leitura do relatório traz um sinal claro de que soluções temporárias não bastam.