O endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro do debate público com números que aproximam o patamar recorde de 2022. Dados do Banco Central mostram que as dívidas com o Sistema Financeiro Nacional correspondem, em média, a quase metade da renda acumulada dos últimos doze meses — enquanto o número de famílias com renda comprometida atingiu o maior nível da série histórica em janeiro. Para o governo, a resposta privilegiada tem sido um novo desenho do programa Desenrola, que liberaria recursos do FGTS para quitação de débitos.
Especialistas ouvidos apontam que não existe uma solução única. Para Eric Brasil, da LCA, o problema é estrutural: a taxa básica de juros permanece elevada e encarece o custo do crédito. Fernando Honorato, do Bradesco, destaca que, mesmo com juros altos, houve aumento na oferta e na procura por empréstimos — em dezembro de 2025 os saques por pessoas físicas bateram recorde — o que agrava a fragilidade das famílias. Estudos citados pela LCA indicam ainda que o risco maior está na qualidade do endividamento, concentrado em crédito rotativo e de curto prazo, com juros muito altos.
Do lado do sistema financeiro, Febraban vê abertura ao diálogo para elaborar um pacote de renegociação com desenho cuidadoso; já a ABBC expressa preocupação com o avanço de linhas de maior risco ao consumidor. Analistas como Jefferson Bittencourt apontam para uma desconexão entre a política fiscal do governo — que amplia gasto e estímulo ao crédito — e a política monetária do Banco Central, que, mesmo iniciando um ciclo de cortes, mantém Selic em nível historicamente elevado. Essa tensão pressiona o BC a sustentar juros altos por mais tempo, ampliando o custo sobre orçamentos familiares.
O quadro acende alerta político e econômico: programas de renegociação podem dar alívio temporário, mas não substituem ajustes fiscais e maior prudência na expansão do crédito. A concentração do problema nas faixas de renda mais baixas e em produtos como cheque especial, cartão e crédito pessoal não consignado torna a questão também um desafio social. Para evitar que a medida paliativa do FGTS se transforme em expediente eleitoral sem impacto duradouro, será necessária coordenação entre medidas fiscais, regulação do crédito e políticas de proteção aos mais vulneráveis.