Um ingresso recorde de US$ 2,416 bilhões na semana seguinte ao primeiro turno deixou claro que o mercado antecipou parte do desfecho eleitoral. Foi o maior fluxo para esse período desde o início da série histórica do Banco Central, em 2008, e contrasta com três das quatro eleições anteriores, quando houve saída líquida de dólares. Na prática, o movimento traduziu-se em real mais forte, Bovespa em alta e juros futuros mais calmos — sinais de que investidores recalibraram posições depois do resultado do primeiro turno.
Segundo Leonel Oliveira Mattos, especialista em câmbio da StoneX, o fator central foi o desempenho acima do esperado de um dos candidatos no primeiro turno, que os agentes interpretaram como forte indício de vitória no segundo. Essa leitura levou a uma corrida por ativos domésticos e, simultaneamente, a importadores que aproveitaram a queda do dólar abaixo de R$ 5,00 para antecipar compras — transformando fluxo comercial em entradas pela conta financeira e ampliando o saldo positivo observado.
O efeito combinado, avalia Mattos, tende a tornar a reação do mercado no segundo turno mais moderada: como boa parte do ajuste já ocorreu, uma vitória do candidato que se saiu bem no primeiro turno pode produzir ganhos adicionais no real e na bolsa, porém com intensidade reduzida em relação ao choque inicial. No outro extremo, uma reeleição do atual presidente seria, nas palavras do analista, uma surpresa não precificada — e exigiria rápida recomposição de preços, com provável desvalorização da moeda e pior desempenho dos ativos brasileiros.
Além do jogo eleitoral imediato, o especialista chama atenção para o espaço fiscal. Medidas recentes anunciadas pelo governo — aumento do teto do MEI, isenções e perdão de dívidas, entre outras — levantam dúvidas sobre onde serão encontrados recursos para 2027. Para além do resultado do segundo turno, a credibilidade fiscal será o fator decisivo para consolidar atratividade de capitais no médio prazo; sem sinais claros de ajuste, o país corre o risco de repetir pressões sobre a taxa de câmbio e custos de financiamento, independentemente de quem vença a eleição.