A economista-chefe do JPMorgan para o Brasil, Cassiana Fernandez, classificou como o maior risco atual para as relações com os Estados Unidos uma eventual retaliação e a escalada de tarifas comerciais. Em evento promovido pelo Lide em São Paulo, ela pediu que o país permaneça na mesa de negociação em vez de responder com medidas que ampliem tarifas e, por consequência, pressionem ainda mais a inflação doméstica num cenário já marcado por deterioração econômica.
Fernandez lembrou os números que explicam a vulnerabilidade: a tarifa média ponderada dos EUA ao Brasil está próxima de 11% e poderia subir para cerca de 19% se as recentes propostas de sobretaxação de 25% se concretizarem. Esses aumentos, embora atuem de forma concentrada em cadeias específicas, têm potencial de elevar custos ao consumidor e criar choques setoriais que reverberam na atividade e no emprego.
O diagnóstico do JPMorgan destaca uma assimetria entre canais comerciais e de investimento: enquanto as tarifas pressionam o comércio, o fluxo de investimento estrangeiro direto (IDP) americano sustenta boa parte da capacidade produtiva e vagas qualificadas no país. Segundo a instituição, o IDP total esperado para o ano chega a 3,3% do PIB, com cerca de 19% desse total vindo dos EUA — participação muito superior à observada da China, estimada entre 7% e 8%.
Do ponto de vista prático, a mensagem é dupla e incisiva: evitar medidas retaliatórias que ampliem tarifas e, ao mesmo tempo, reforçar uma agenda pró-investimento. Para atrair e proteger capital direto são necessárias previsibilidade regulatória, estabilidade macroeconômica e compromissos claros que preservem as cadeias produtivas brasileiras. Politicamente, a alternativa à negociação expõe o governo ao custo econômico de maior inflação e ao desgaste institucional de medidas que podem afetar empregos e setores estratégicos.