A aproximação entre Brasil e Estados Unidos em torno do comércio e das tarifas já deixou claro que a pauta vai além de alíquotas: envolve acesso a reservas de terras raras, insumo estratégico para tecnologia, defesa e cadeias industriais. O economista Jorge Ferreira, em entrevista ao Agora CNN, avalia que a delegação americana tentará replicar fórmulas observadas em outros casos — buscando tratados que garantam preferência a empresas dos EUA na exploração de áreas brasileiras com minerais críticos.
Na prática, esse tipo de acordo pode significar concessões que colocam empresas estrangeiras em condição privilegiada em licitações, contratos de longo prazo ou mesmo direitos preferenciais em determinadas jazidas. Do lado brasileiro, há resistência a qualquer exclusividade. Ferreira defende que levar a disputa para a lógica de mercado, com concorrência aberta, tende a ser mais vantajoso para captar investimentos e para a administração eficiente das concessões. Mas essa opção exige regras robustas para proteger receita pública, conteúdo local e soberania sobre recursos estratégicos.
O especialista também destaca que o projeto de lei sobre minerais críticos já aprovado no Congresso é apenas um começo: faltam normas claras e um arcabouço regulatório que discipline concessões, tributos, responsabilidades ambientais e mecanismos de revisão por segurança nacional. Sem essa estrutura, o Brasil corre o risco de amarrar vantagens estratégicas a contratos pouco transparentes. Ferreira é cauteloso quanto à eliminação total de tarifas: o cenário mais plausível é de redução significativa, não de eliminação total — e o regime atual já teve impacto, com uma queda de 6% no comércio exterior com os EUA, especialmente em metais e eletrônicos.
A mudança na escalação de interlocutores americanos — com nomes como Jamieson Greer e Howard Lutnick assumindo papel técnico, em contraste com a fase anterior mais política representada por Marco Rubio — indica passagem a um estágio prático das conversas. Para o governo brasileiro, o desafio político agora é equilibrar a atração de investimentos e tecnologia com a necessidade de um marco legal que evite entregas desvantajosas. Mercados veem com otimismo a abertura do diálogo, mas a decisão final dependerá da capacidade do Brasil de negociar salvaguardas e construir regulação que maximize benefícios econômicos sem abrir mão da soberania.