A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas projeta efeitos que vão além da segurança: pode gerar custos econômicos visíveis e um risco reputacional duradouro para o Brasil. Em entrevista, o especialista Jorge Lasmar divide os impactos em dois níveis: a própria rotulação como terrorismo e o regime subsequente de sanções, que altera regras de comércio e de relacionamento com empresas americanas.
No campo econômico imediato, a proibição imposta a firmas norte-americanas de manter relações com entidades sancionadas eleva o grau de escrutínio sobre parceiros brasileiros. Isso tende a aumentar custos de compliance, a exigir due diligence mais aprofundada e a complicar operações comerciais que envolvem contrapartes dos EUA. Empresas nacionais precisarão demonstrar de forma robusta que não financiam ou facilitam a lavagem de recursos vinculada às facções, sob risco de expor-se a sanções secundárias.
Lasmar também chama atenção para o canal financeiro: seguros e garantias para transações internacionais podem ficar mais caros diante do aumento do risco percebido. Esse encarecimento tem potencial de gerar efeito inflacionário nos preços e, no limite, pressionar taxas de juros. Do ponto de vista do turismo, a mensagem internacional de que grupos criminosos controlam áreas do território brasileiro pode reduzir a procura por visitantes e afetar receitas locais, sobretudo em destinos que dependem de imagem de segurança.
Há ainda uma consequência institucional na cooperação entre Brasil e EUA. A designação desloca parte do enfrentamento da esfera policial para a de defesa e inteligência — áreas que operam com maior confidencialidade e sob comando de agências como a CIA — o que pode reduzir o fluxo de informações jurídicas e policiais. Lasmar cita o México como precedente: lá, empresas enfrentaram ações legais e bancos quase foram afastados do sistema financeiro americano diante de suspeitas de ligação com o crime organizado.
Diante desse quadro, a saída apontada pelo especialista é diplomática, mas condicionada a ações domésticas claras. O governo brasileiro precisa demonstrar medidas eficazes de combate ao crime organizado para mitigar riscos econômicos e reputacionais. A conta não é apenas de segurança: é fiscal, administrativa e comercial — e impõe ao Executivo resposta rápida e transparente para evitar que a decisão americana se traduza em custos reais para empresas e cidadãos.