O governo federal interpreta o desconforto público do presidente Donald Trump com o Pix como algo que excede a defesa de empresas americanas de meios de pagamento. Fontes oficiais ouvidas pela reportagem avaliam que a principal preocupação da Casa Branca é o potencial do sistema brasileiro para viabilizar transações comerciais internacionais sem passar pelo dólar, uma mudança com impacto direto no poder de influência econômico dos EUA.

Hoje, operações entre países costumam envolver conversão para a moeda americana antes de seguirem ao destino. A avaliação oficial é que, se consolidado como mecanismo transfronteiriço, o Pix — pela agilidade e custo — poderia reduzir essa dependência. Há também o receio de que o Pix funcione como alternativa ao SWIFT, o sistema global de mensagens financeiras sobre o qual os EUA exercem controle e que já foi usado como instrumento sancionador.

Na resposta diplomática, o governo aguarda uma reunião virtual prevista para esta semana com representantes americanos, na qual devem participar os ministros Marcio Elias (MDIC) e Mauro Vieira (Relações Exteriores) e, do lado norte-americano, o representante Jamieson Greer. O debate terá como pano de fundo a tarifa de 25% proposta pelo USTR com base na Seção 301, direcionada ao Brasil e citada em investigações que apontaram práticas comerciais desleais — além da tarifa de 12,5% que atinge também a União Europeia e outras nações.

A possibilidade de um acordo bilateral sobre a tarifa de 25% é encarada com maior otimismo pelo Palácio do Planalto; os 12,5% globais são vistos como mais difíceis de reverter via negociação direta. A disputa acende alerta sobre custos reais para exportadores e sobre a necessidade de uma estratégia diplomática que combine defesa tecnológica do Pix, argumentação técnica e pressão por canais comerciais. Dependendo do desfecho, o encontro desta semana pode abrir caminho para um contato informal entre Lula e Trump na cúpula do G7.