A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) relativa à reunião dos dias 16 e 17 de junho, divulgada em 23 de junho, deixou pontos centrais pouco esclarecidos, segundo avaliação do economista Marcelo Fonseca, da CVPAR. O documento não trouxe justificativas claras para a manutenção do ciclo de afrouxamento — com novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic — em um cenário em que a inflação corrente vem subindo e já ultrapassou o teto da meta.

Para Fonseca, os fundamentos econômicos não sustentam a continuidade do relaxamento monetário. Mesmo ao considerar o núcleo de inflação, que exclui itens voláteis, há sinais de deterioração das pressões de preços. Além disso, as expectativas de inflação — um indicador-chave para a condução futura da política — se mostraram desancoradas nas últimas semanas, enquanto o câmbio registrou tendência de depreciação. No horizonte de política monetária, as projeções oficiais e de mercado permanecem acima da meta de 3% para 2027.

O ponto central da crítica é a política fiscal. Segundo o especialista, o país opera hoje com juros reais elevados (a Selic em torno de 15%, por exemplo) e, ainda assim, não consegue fazer a inflação convergir para a meta porque a política fiscal tem sido expansionista. Fonseca estima que, só neste ano, os estímulos fiscais somem perto de R$ 200 bilhões em diferentes formatos — um volume que, na sua leitura, vem alimentando a alta de preços e reduzindo a capacidade do Banco Central de controlar a inflação apenas com a via monetária.

Do ponto de vista técnico, o Banco Central pode optar por uma transição mais suave da inflação até a meta para evitar choques grandes na atividade. Mas, avalia Fonseca, essa estratégia já vem sendo usada por um período prolongado sem que se observe uma convergência satisfatória dos preços. Ao mesmo tempo, a economia mostra sinais de força: crescimento em ritmo saudável e desemprego em níveis historicamente baixos, o que complica a escolha entre preservar atividade e priorizar estabilização de preços.

O diagnóstico traçado pelo economista tem implicações políticas e econômicas. Se a leitura estiver correta, a solução passa por ajuste fiscal e pelo fim de medidas que ampliem déficits ou injam recursos na economia — o que exige decisões políticas com custo. Para o BC, ficar refreando agressividade monetária diante de pressões fiscais pode significar alongar o período em que a inflação permanece acima da meta e aumentar o custo final em termos de sacrifício econômico necessário no futuro.