As exportações da China cresceram 27% em junho na comparação anual, segundo dados alfandegários divulgados nesta terça-feira, um resultado acima das expectativas do mercado e o melhor desempenho em quatro meses. O avanço foi impulsionado pela demanda global por chips e capacidade de processamento para centros de dados — insumos fundamentais ao atual boom da inteligência artificial —, além de remessas antecipadas para os Estados Unidos diante da perspectiva de aumento de tarifas.
As importações também registraram alta expressiva, de 36%, o maior nível em cinco anos, com compras significativas de componentes provenientes da Coreia do Sul (alta de 85%) e de Taiwan (41,1%), dois importantes fornecedores de semicondutores. O movimento reforça a imagem de que a indústria chinesa está captando o ciclo de investimento global em tecnologia e reagindo ao quadro externo com preços competitivos e estoque antecipado por varejistas no ocidente.
Na ponta interna, porém, a recuperação é desigual. Vendas no varejo estagnaram e o investimento em ativos fixos registrou desempenho negativo, indicando que o motor doméstico segue fraco. Em paralelo, os preços na porta da fábrica continuam em queda, sinalizando que exportadores estão comprimindo margens para ganhar quota de mercado. Esses fatores deixam a segunda maior economia do mundo dependente de choques externos favoráveis para manter o ímpeto recente.
Para o governo, o salto nas exportações oferece uma folga temporária: cria espaço político e econômico para ajustes fiscais e estímulos adicionais sem um impacto imediato sobre as contas externas — o superávit comercial saltou para US$125,6 bilhões em junho. Mas também acende um alerta: se a demanda externa arrefecer, a fraqueza do consumo doméstico pode traduzir-se rapidamente em desaceleração mais ampla e nova pressão por medidas de suporte.
O quadro exige estratégia dupla: aproveitar o vento a favor da onda global de IA para atrair investimento de maior valor agregado, ao mesmo tempo em que se trabalham políticas voltadas a recompor confiança do consumidor e dinamizar crédito e investimento interno. A China divulga na quarta-feira os dados do PIB do segundo trimestre; o relatório será acompanhado de perto por mercados e formuladores de política que precisam avaliar se o impulso exportador é sustentável ou apenas um alívio temporário.