A declaração da economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, expõe uma lacuna política que começa a incidir no mercado: embora a maioria dos presidenciáveis admita a necessidade de corrigir a trajetória das contas públicas, nenhum apresentou um roteiro claro e viável para o ajuste fiscal. O diagnóstico — que inclui aumento expressivo da relação dívida/PIB e um déficit nominal elevado — já é público; faltam, porém, medidas concretas que mostrem como a redução da trajetória de dívidas e despesas será operacionalizada sem criar ruídos desnecessários na economia.
Os números mencionados por Rafaela reforçam o grau de urgência: a relação dívida/PIB subiu de 72% em 2022 para mais de 82% atualmente e há projeção de fechar o ano acima de 83%. O déficit nominal, apontado perto de 9 pontos percentuais do PIB, e o crescimento médio das despesas — bem superior à regra prevista no arcabouço fiscal — alimentam a percepção de que a situação é insustentável no médio prazo. Essa combinação explica por que o mercado financeiro demanda posicionamentos mais precisos das campanhas e porque a ausência de propostas detalhadas já começa a ser interpretada como risco político e econômico.
Politicamente, a evasão de propostas detalhadas tem explicação eleitoral: medidas de contenção do gasto costumam ser impopulares à beira de uma disputa presidencial. Ainda assim, a omissão traz custos. Sem um plano crível, a alternativa de um ajuste futuro tende a ser mais traumática e menos controlada — via desvalorização, inflação mais alta ou cortes abruptos de gastos — impacto que recairia sobretudo sobre os mais pobres, como a economista lembra ao relacionar episódios passados de ajuste pela inflação às crises anteriores. Isso cria um dilema para as campanhas: postergar a exposição das medidas reduz desgaste no curto prazo, mas amplia desgaste institucional e riscos macroeconômicos ao final do mandato que assumir o Planalto.
No plano técnico, Rafaela aponta caminhos inevitáveis no debate: revisar vinculações e regras que ampliam despesas obrigatórias, além de repensar o ganho real do salário mínimo, cujo efeito cascata reajusta benefícios e pressiona ainda mais o orçamento. O próprio governo em exercício, segundo ela, não observou integralmente as restrições que definiu — com limite de crescimento das despesas acima da inflação previsto em 2,5% e resultado médio próximo de 5% — o que complica a credibilidade de qualquer promessa fiscal feita em campanha.
A consequência política e econômica é clara: sem um roteiro plausível e comunicação transparente sobre trade-offs, aumentam a pressão do mercado e a incerteza sobre custos futuros do ajuste. A alternativa de um ajuste gradual e bem articulado tem benefício direto na redução de juros e no retorno de condições para um crescimento sustentável; a omissão, por sua vez, eleva o risco de que o ajuste ocorra por mecanismos mais dolorosos e regressivos. Para candidatos e eleitores, o desafio é exigir medidas factíveis hoje, antes que a conta seja paga pela sociedade depois.