O Ministério da Fazenda revisou nesta segunda-feira a projeção da inflação para 2026 de 3,7% para 4,5% — exatamente no teto do intervalo de tolerância da meta (3% com tolerância até 4,5%). A mudança consta do boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica e incorpora, segundo o documento, o choque internacional no preço do petróleo e a expectativa de mercado por uma taxa Selic mais alta ao longo do ano. Para o INPC a projeção também subiu, de 3,8% para 4,6%.
A cotação média do barril utilizada pela equipe foi de US$ 91,25, cerca de 25% acima da estimativa anterior, um fator importante para o repasse ao preço dos combustíveis. O relatório ressalta, porém, que parte desse impacto deverá ser compensada pela apreciação do real e por medidas adotadas pelo governo para mitigar o repasse doméstico. Essa combinação de efeitos deixa claro que a trajetória de preços dependerá tanto de choques externos quanto de decisões políticas internas.
Do lado real da economia, a Fazenda manteve a projeção de crescimento do PIB em 2,3% para 2026, com desaceleração em meados do ano e ligeira recuperação no final. Para 2027, a inflação esperada foi elevada de 3% para 3,5% e o crescimento projetado subiu para 2,6%. A dívida bruta do governo geral teve leve revisão para baixo, de 83,7% para 83% do PIB, mas permanece em nível elevado, ressaltando vulnerabilidades fiscais caso o aperto monetário e o choque nos preços reduzam receitas ou elevem gastos.
A leitura política e econômica é direta: a elevação da projeção até o teto da meta acende alerta para a política monetária e para o custo de vida. A expectativa de Selic mais alta, já incorporada nas estimativas, amplia a pressão sobre o consumo e pode limitar espaço para estímulos fiscais. Ao mesmo tempo, a dependência de medidas mitigatórias para conter o repasse do petróleo expõe o governo a risco político se essas ações não forem efetivas ou suficientes. Em suma, o boletim confirma um cenário mais desafiador para manter a ancoragem inflacionária sem penalizar o crescimento.