A recente audiência do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, reacendeu uma discussão central para a macroeconomia contemporânea: até que ponto a autoridade monetária pode, de fato, controlar o emprego sem comprometer sua credibilidade no combate à inflação? Warsh tem construído uma narrativa consistente de que, embora o Fed responda formalmente a dois objetivos — preços e emprego — a eficácia da política monetária é hoje muito mais forte para influenciar a inflação do que o nível de desemprego.

O contraste com o Banco Central do Brasil é óbvio: aqui a meta é única, centrada em preços. Nos EUA, porém, a pressão por resultados no mercado de trabalho é política e socialmente intensa. A análise, entretanto, aponta para um limite técnico e estrutural: fatores regionais, restrições migratórias e avanços tecnológicos reduzem a sensibilidade do emprego às variações da taxa de juros, tornando cortes de juros uma ferramenta de alcance limitado para reverter um enfraquecimento que pode ser de oferta.

Relatórios recentes, como o do Goldman Sachs de dezembro de 2025, já sugerem que a fraqueza no emprego tem caráter estrutural — reflexo, entre outros fatores, de mudanças na imigração — e não apenas um problema cíclico. Os números mais recentes reforçam essa avaliação: CPI anual caiu para 3,5% em junho e núcleo para 2,6%, movimento em grande parte puxado pela queda de preços de energia após um choque geopolítico. Ao mesmo tempo, o payroll privado mostrou crescimento com apenas 57 mil vagas e desemprego em 4,2%. É um quadro em que a inflação arrefece por fatores exógenos, enquanto a criação de empregos não acompanha.

A implicação política e técnica é clara: insistir em usar juros para corrigir um problema que decorre de oferta — migração, tecnologia e dinâmica demográfica — pode custar credibilidade e elevar inflação no longo prazo, conforme as lições de Friedman e dos trabalhos sobre expectativas racionais. Para mercados e formuladores, o recado é duplo: o Fed terá de pesar a eficácia limitada da política monetária sobre o emprego e priorizar a estabilidade de preços, ao mesmo tempo em que a resolução do déficit de mão de obra exige políticas fiscais, migratórias e estruturais que estão além do alcance do banco central.