A proposta de permitir o saque do FGTS para quitar dívidas de consumo voltou a ganhar espaço no debate público, mas especialistas e analistas financeiros alertam que se trata, no máximo, de um paliativo. Com cerca de 80% das famílias enfrentando dificuldade para pagar contas, a medida pode reduzir inadimplência pontual sem, porém, atacar as causas estruturais do endividamento.
O FGTS foi criado na década de 1960 com dupla finalidade: proteção ao trabalhador em casos como demissão sem justa causa, doença grave ou aposentadoria, e financiamento de projetos sociais — habitação, saneamento e infraestrutura. Usar esse recurso para pagar cartão de crédito ou cheque especial conflita com esses objetivos e corrói a rede de proteção que o fundo oferece.
O problema, como têm destacado analistas, está em fatores como juros elevados, oferta desregulada de crédito a faixas vulneráveis e mudanças no padrão de consumo das famílias. Medidas que permitam saques imediatos não tratam desses vetores; ao contrário, podem reduzir a capacidade de enfrentar choques futuros, transferindo custo do médio prazo para o curto prazo.
Do ponto de vista público, a alternativa exige combinar disciplina fiscal, regulação do crédito, educação financeira e políticas direcionadas ao crescimento da renda. Liberar o FGTS pode reduzir pressão política no curto prazo, mas politicamente também pode expor o governo a críticas por desviar um instrumento de política social para solucionar um sintoma — não a doença — do endividamento.