O governo deve anunciar ainda nesta semana a segunda versão do Programa Desenrola Brasil, conhecida como Desenrola 2.0, que permitirá aos trabalhadores utilizar até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou a agenda do anúncio, e o Ministério do Trabalho estimou o uso de cerca de R$ 7 bilhões com potencial para atingir até 10 milhões de beneficiários. A medida chega em um momento em que o endividamento das famílias já é significativo: 49,9% segundo o Banco Central.
Especialistas consultados alertam que a solução pode ser paliativa e produzir efeito rebote. Ao limpar o nome do consumidor, a renegociação tende a reabrir acesso a crédito — em um mercado onde a oferta existe, mas custa caro. Com a Selic em 14,75% e juros rotativos do cartão acima de 400% ao ano, a facilidade de crédito pode converter alívio imediato em nova onda de endividamento, agora sem a proteção do FGTS como reserva.
Analistas como planejadores financeiros e economistas destacam outro nó: a retirada de recursos do FGTS reduz o patrimônio das famílias e transfere riqueza para o sistema financeiro se a dívida for quitada apenas para liberar consumo futuro. A combinação de comportamento de consumo, baixa educação financeira e oferta de crédito amplo, sem mudança estrutural, tende a perpetuar ciclos de inadimplência — atualmente com cerca de 27,5 milhões de pessoas em situação recorrente, segundo a Assertiva.
Do ponto de vista público, a iniciativa tem potencial político de curto prazo ao dar resposta a famílias endividadas, mas levanta dúvidas sobre sua eficácia de médio prazo. Sem políticas complementares — educação financeira, regulação do crédito caro e medidas que reduzam a pressão inflacionária — o Desenrola 2.0 corre o risco de ser um paliativo que adia, e possivelmente agrava, o problema estrutural do endividamento das famílias.