A proposta do governo federal de estudar a liberação de até R$ 17 bilhões do FGTS para ajudar trabalhadores a pagar dívidas provocou reação dura do setor imobiliário. A Abrainc classificou a medida como um desvio da finalidade do fundo, criado para saneamento, habitação e infraestrutura, e advertiu sobre o risco de reduzir recursos voltados ao enfrentamento do déficit habitacional.
Segundo cálculos da associação, o montante estudado poderia financiar cerca de 50 mil moradias — um parâmetro usado para ilustrar o custo de oportunidade da retirada. A entidade também aponta que o FGTS já sofreu uma retirada líquida na ordem de R$ 140 bilhões nos últimos anos, o que teria pressionado a capacidade de investimento do fundo e do Estado em programas habitacionais.
Do lado do governo e da Caixa, a avaliação é distinta na forma, mas não inteiramente sem preocupação. O diretor de habitação da instituição afirmou que estudos de capacidade e de garantia da rentabilidade estão em curso e ressaltou que há orçamento aprovado para o FGTS até 2028. O governo anunciou ainda aporte de R$ 20 bilhões no programa Minha Casa Minha Vida e citou R$ 50 bilhões do Fundo Social como reforço ao setor, além de um orçamento recorde para o SBPE.
A divergência expõe uma apreensão prática e política: especialistas do setor dizem que os recursos anunciados não são equivalentes, pois atendem faixas de renda distintas, e não compensam a perda de capacidade de investimento de longo prazo. A alternativa, defendem, passaria por educação financeira e políticas específicas de crédito, não pela diluição do papel estruturante do FGTS. Em termos políticos, a proposta cria dilemas para o governo — equilibrar resposta imediata ao endividamento sem comprometer um instrumento central de política habitacional exige estudos técnicos transparentes e comunicação clara sobre trade-offs.