Os estudos do governo federal sobre a possibilidade de permitir saques do FGTS para quitação de dívidas têm provocado reação imediata do setor da construção. Em entrevista ao CNN 360º, Renato Correia, presidente da CBIC, classificou a iniciativa como preocupante por desviar recursos cuja finalidade principal é o financiamento habitacional e a proteção do trabalhador em situações como demissão e doença grave.

A preocupação do setor não é apenas retórica: segundo cálculos apresentados pela CBIC, R$ 10 bilhões do fundo viabilizam cerca de 65 mil moradias. O governo tem discutido faixas entre R$ 7 bilhões e R$ 17 bilhões, o que, na avaliação da entidade, poderia reduzir a construção de imóveis em ordem de grandeza de 50 mil unidades — um impacto direto sobre o déficit habitacional, que segue resiliente no país.

Além do efeito sobre oferta de moradias, há dúvidas sobre a eficácia da medida para reduzir o endividamento das famílias. A CBIC lembra que a dívida média por brasileiro endividado é de cerca de R$ 6.300, enquanto o saque potencial por trabalhador seria em torno de R$ 1.700 — valor insuficiente para quitar a maioria das obrigações. Correia compara a iniciativa a medidas temporárias anteriores, como a antecipação de consignado, que não solucionaram o problema estrutural do endividamento.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a proposta não pretende comprometer a sustentabilidade do fundo e seria aplicada de forma limitada e opcional. Ainda assim, a proposta expõe uma contradição política e econômica: ao oferecer alívio pontual, o governo arrisca reduzir recursos destinados a políticas habitacionais essenciais e a transferir para o curto prazo um problema que exige reformas mais profundas, como redução de carga tributária e queda de juros. A discussão coloca o Executivo diante do dilema entre respostas imediatas ao eleitorado endividado e a preservação de instrumentos de longo prazo para a moradia.