A ambição de transformar a FIFA em uma estrutura empresarial e colocar 20% de suas operações nas mãos de investidores privados revelou mais do que uma estratégia comercial: escancarou uma crise de consultoria e legitimidade. Gianni Infantino apresentou a ideia da FIFA Forward Enterprise num momento em que a receita da entidade saltou — estimativa de US$ 13 bilhões no ciclo 2023–2026 ante US$ 7,6 bilhões no ciclo anterior —, mas esqueceu que, no futebol global, dinheiro sem consenso gera instabilidade institucional.

A reação foi imediata e contundente. UEFA qualificou o plano como “sórdido”, “opaco” e fruto de manobras em “bastidores”, enquanto AFC e Concacaf também se posicionaram contra. A resistência das principais confederações evidencia um problema político: a gestão de ativos e direitos comerciais da FIFA não é apenas uma operação financeira, é um pacto entre membros que exigem transparência e participação. A tentativa de envolver investidores liderados por Joshua Kushner, ligado politicamente a figuras controversas, agravou o custo reputacional.

O episódio não surge no vácuo. Desde a eleição de Infantino em 2016, após o escândalo que derrubou Joseph Blatter, a entidade vem acumulando episódios que tensionam interlocução com federações e opinião pública: mudança do calendário por causa da Copa de 2022 no Catar, escolha da Arábia Saudita para 2034, concessão de um Prêmio da Paz a Donald Trump, e decisões controversas envolvendo seleções e árbitros. Esses eventos mostram um padrão de decisões centrais que raramente passam pelo crivo amplo das associações filiadas.

Do ponto de vista econômico, a proposta revelava riscos concretos. Converter direitos comerciais em ativos com participação privada concentra controle, cria potenciais conflitos de interesse e reduz mecanismos de prestação de contas — fatores que podem afastar patrocinadores, gerar questionamentos regulatórios e fragilizar contratos existentes. Mais do que buscar eficiência, o movimento expõe a FIFA a uma disputa por governança: quem decide o que é estratégico, e com que transparência?

A retirada — rápida — do projeto indica que a entidade ainda depende da confiança das confederações para operar. Restaurá‑la exigirá medidas práticas: revisão transparente de propostas comerciais, diálogo formal com as filiadas e critérios claros para qualquer parceria privada. Em suma, a modernização financeira só será legítima se vier acompanhada de governança robusta; caso contrário, o preço pago pela busca de receita pode ser a erosão do próprio mandato da organização.