O ministro do Empreendedorismo, Paulo Henrique Pereira, disse em entrevista que não há incompatibilidade entre o projeto que prevê o fim da escala 6x1 e o estímulo ao empreendedorismo. Para o titular da pasta, tanto a redução da jornada quanto a expansão do MEI e de regimes simplificados de tributação perseguem o mesmo objetivo: dar mais autonomia ao cidadão, melhorar a qualidade de vida e abrir espaço para que trabalhadores possam estudar, cuidar da família ou mesmo iniciar um negócio próprio.
Pereira reconheceu, porém, que a mudança tem efeitos práticos sobre empregadores — em especial micro e pequenas empresas — e estimou que entre 10% e 15% dos empreendedores podem ser diretamente alcançados pela medida. O ministério afirma que trabalhará na regulamentação para “amortizar” impactos, citando o exemplo do Simples Nacional como referência para criar medidas tributárias e administrativas que protejam negócios de menor porte. O discurso busca conciliar narrativa social com preocupação com a sustentabilidade das empresas.
A proposta, contudo, levanta questões econômicas e administrativas reais. Alterar escalas como a 6x1 pode aumentar custos de folha, exigir contratações adicionais ou maior pagamento de horas extras, elevando a pressão sobre negócios com margens apertadas. Sem detalhes sobre mecanismos de compensação — créditos, desonerações temporárias ou transição gradual — a promessa de mitigação corre o risco de se chocar com limitações fiscais e resistência do setor privado. Há ainda o perigoso efeito colateral: se os ajustes onerarem demais a formalização, a resposta do mercado pode ser a informalidade ou reajuste de preços ao consumidor.
Politicamente, o pronunciamento tenta transformar uma medida trabalhista em vitrine pró-autonomia, mas acende alerta para o governo: é preciso entregar detalhes técnicos e dispositivos legais que convençam empresários e parlamentares. A ausência de um pacote claro aumenta o espaço para críticas e pressões setoriais, e a equação fiscal será determinante para evitar desgaste. No fim, o sucesso da proposta dependerá menos da retórica e mais da capacidade do Executivo de traduzir intenção em regras que conciliem proteção ao trabalhador e viabilidade empresarial.