A proposta de emenda constitucional que prevê o fim da escala 6x1 e a redução progressiva da jornada de trabalho voltou a mobilizar preocupações do setor produtivo. Pelo texto em análise, a carga semanal cairia de 44 horas para 42 em até 60 dias, com nova redução para 40 horas nos 14 meses seguintes. Especialistas ouvidos alertam que a transição, além do efeito direto sobre horas trabalhadas, implica custos operacionais adicionais que precisam ser avaliados em prazo curto.

O impacto imediato mais citado é o aumento da folha: estimativas de entidades patronais citadas pelo professor Pedro Benatto indicam que, se salários forem mantidos, a conta pode subir algo em torno de 21% para cobrir horas não trabalhadas. Além da folha, a expansão do quadro — caso necessária — representa encargos extras com transporte, alimentação, plano de saúde e demais obrigações. A preocupação se agrava porque pequenas e médias empresas concentram parcela relevante da mão de obra, e setores que operam 24 horas, como hospitais, supermercados e indústrias, terão menos margem de manobra.

A Constituição proíbe redução salarial, o que complica o ajuste por produtividade: defensores da PEC citam estudos europeus que associam jornada menor a ganho de eficiência por hora, mas o efeito prático dependerá de cada empresa. Na avaliação jurídica de Benatto, a resposta imediata pode passar por negociações com sindicatos e adoção de regimes específicos previstos na PEC; se a produtividade não se materializar, o instrumento legal disponível será a rescisão e nova contratação nos termos da CLT. Ele recomenda que empresários e investidores considerem provisões em diligências para o risco de custo futuro com jornada reduzida.

Do ponto de vista político e institucional, a proposta deve sofrer alterações no Senado e chega em ano eleitoral, o que adiciona incerteza à precificação do risco regulatório. O debate exige detalhamento setorial e regras de transição que minimizem o choque sobre empresas e empregos. Em suma, a proposta acende alerta econômico: sem mecanismos de compensação ou flexibilização por setores, a conta pode recair com mais intensidade sobre pequenas empresas e sobre segmentos de operação contínua.