A proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da escala 6x1, a obrigatoriedade de dois dias consecutivos de descanso e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas abriu uma frente de tensão entre o Congresso e setores produtivos. Empresários e associações alertam que a rigidez da regra não considera particularidades operacionais e pode traduzir-se em custo imediato para empresas e consumidores — exatamente no momento em que a inflação e a sensibilidade a preços continuam altas.
No campo, lideranças do agronegócio destacam que janelas de plantio e colheita, além da rotina de laticínios, exigem arranjos flexíveis de trabalho que uma escala fixa não contempla. O setor agropecuário — que emprega cerca de 30 milhões de pessoas, segundo representantes da área — argumenta que medidas uniformes sobre a jornada podem reduzir produtividade em fases críticas da safra e comprometer a logística. A posição defende negociação local entre empregador e empregado em vez de imposição única do formato.
O varejo também levantou preocupações práticas e de custo. Associações do setor supermercadista dizem que pequenas redes dificilmente conseguiriam migrar para uma escala 5x2 com redução de horas sem repassar despesas; estudos setoriais citados apontam impacto direto nos preços, com estimativas de aumento na ordem de 9% a 10% em alguns segmentos. Além de supermercados, hospitais, condomínios, bares e restaurantes aparecem como atividades que sofreriam efeitos encadeados: maior custo de folha tende a pressionar margens ou resultar em reajustes aos consumidores.
Além do efeito econômico imediato, a disputa tem implicações políticas: a PEC força o Legislativo a equilibrar proteção ao trabalho e manutenção da competitividade. Parlamentares favoráveis à alteração precisam responder ao recado das cadeias produtivas e considerar dispositivos setoriais ou regras de transição para mitigar impactos. O debate mostra que mudança de direitos trabalhistas tem preço concreto — e que a solução passa por estudos técnicos, negociações qualificada e alternativas que preservem flexibilidade sem abrir mão de garantias ao trabalhador.