A aprovação na Câmara da PEC que acaba com a escala 6x1 reabriu um debate econômico que vai além da legislação trabalhista: especialistas consultados pelo portal alertam que a mudança, se implementada sem ganhos prévios de produtividade, tende a elevar custos para empresas e consumidores. A proposta combina a redução de jornada com a imposição de uma escala específica, algo que representantes do setor produtivo consideram prematuro diante do desempenho atual da economia.

Para José Pastore, dirigente da FecomercioSP, o Brasil precisa de ganhos de produtividade antes de reduzir horas: países desenvolvidos reduziram jornada na esteira de aumentos de produtividade, não o contrário. O contraste é nítido nas métricas citadas por analistas: enquanto trabalhadores em nações avançadas produzem entre US$ 60 e US$ 80 por hora, a média brasileira está em torno de US$ 17, segundo levantamento mencionado por especialistas.

Economistas como André Portela destacam que escalas costumam ser negociadas entre empregadores e empregados e que a redução automática de horas não garante ganhos de eficiência. A visão é complementada por Gustavo Madi (LCA): um trabalhador descansado rende mais por hora, mas esse ganho hourly não compensaria a queda no total de horas mensais, reduzindo a produção agregada.

Felipe Tavares, da BGC Liquidez, ressalta a trajetória histórica do país: décadas sem avanços consistentes de produtividade tornam improvável que a alteração de escala entregue os resultados prometidos. O efeito prático esperado é aumento de contratações para manter volumes, elevação dos custos operacionais e pressão adicional sobre preços, com consequências inflacionárias e impacto direto no bolso do consumidor.

Do ponto de vista político e econômico, a PEC acende um alerta: sem medidas concomitantes de estímulo à produtividade — investimentos, inovação e reformas estruturais — a mudança corre o risco de transferir custos ao setor privado e à sociedade. A votação na Câmara pode ser o começo de um confronto entre promessa legislativa e a realidade produtiva que a sustentaria.