O debate em curso no Senado sobre o fim da escala 6x1 ganhou tom pragmático a partir de argumentos técnicos que privilegiam a negociação entre empregadores e empregados. Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV Ibre, tem defendido que a redução da jornada, para ser sustentável sem prejudicar competitividade, deve ser construída em acordos setoriais e com um período de transição estendido. A tese desafia propostas de alteração imediata por lei, apontando para riscos reais de custos adicionais e perda de eficiência em ramos com investimentos elevados.
A proposta de estender a transição não é mero capricho corporativo: trata-se de reconhecer diferenças produtivas e de mercado. Setores com maquinário caro, cadeias logísticas rígidas ou margens apertadas tendem a sofrer mais com mudanças repentinas na escala. A experiência internacional citada pelo pesquisador mostra que reduções bem-sucedidas da jornada frequentemente ocorreram via negociação, quando empresas adaptáveis conseguiram repartir ganhos de produtividade entre salários e tempo livre, sem transferir integralmente o ônus para consumidores ou emprego.
Há, porém, um nó político e institucional que complica a solução técnica. O entorno eleitoral transformou a discussão em questão sensível, dificultando debate sereno no Congresso, e existe o risco de judicialização da matéria após aprovação. A reforma trabalhista de 2017 reduziu a litigiosidade e, segundo análises, contribuiu para queda do desemprego ao diminuir custos esperados da contratação. Abrir espaço para disputas na Justiça do Trabalho pode reverter parte desse progresso e gerar incerteza jurídica para empregadores e trabalhadores.
Do ponto de vista prático, o ponto central é político e operacional: fortalecer a capacidade de negociação coletiva e ampliar representatividade sindical para que acordos sejam efetivos. Sem isso, a alternância entre intervenção legislativa e decisões judiciais tende a criar insegurança e custo adicional para a economia. Um caminho que combine prazos longos de transição, possibilidade de modelos híbridos e estímulo à negociação representativa aparece como a alternativa que melhor concilia objetivo social e sustentabilidade econômica.