A proposta que reduz a jornada de 44 para 40 horas — conhecida como PEC 6x1 — enfrenta um nó prático: a falta de um prazo de transição adequado. Para o economista ouvido pela imprensa, não é a redução em si que preocupa, mas o desenho da mudança. Sem tempo para negociação entre empresas e trabalhadores, a adaptação pode gerar um aumento relevante no custo do trabalho e um efeito inflacionário pontual.
Em cenários de implementação imediata, a estimativa técnica citada aponta para um acréscimo de custo entre 6% e 8%. Esse choque, ainda que de natureza única, ocorre num momento em que a inflação recebe pressões vindas de combustíveis e alimentos, complicando as decisões do Banco Central. A consequência é dupla: pressão sobre preços e aumento da dificuldade para manter controle da política monetária.
A experiência de Portugal, usada como parâmetro, mostra resultados díspares conforme houve ou não espaço para negociação coletiva. Onde houve transição negociada, houve pequeno impacto no custo e preservação do emprego; onde a mudança foi imposta de imediato, registraram-se queda de produção, perda de postos de trabalho e aumento médio de custos salariais. No Brasil, a proposta atual não dá sinais claros de espaço amplo para acordos locais.
Há também risco de retrocesso na formalização. A reforma trabalhista de 2017 já tocou em parte do problema, mas a formalização depende, sobretudo, da redução de encargos que tornam o emprego formal caro. Uma alteração de jornada que apenas eleve custo sem medidas compensatórias pode empurrar empresas e trabalhadores para a informalidade. A saída política exigirá prazos, mecanismos de negociação e avaliação dos impactos setoriais antes de aprovar mudanças definitivas.