A poucas dias do primeiro turno, o governo anunciou conjunto de medidas que atinge diretamente eleitores com dívidas: a proibição das apostas esportivas online e o lançamento do Desenrola 3.0, novo programa de renegociação. Especialistas consultados avaliam que o timing e o formato dos anúncios reforçam suspeitas de motivação eleitoral, ainda que reconheçam benefícios pontuais para famílias endividadas.
O pacote anunciado soma, segundo levantamento divulgado, cerca de R$ 271 bilhões em efeitos para 2026 — entre linhas de crédito, subsídios e reforços orçamentários. Na prática, além da perda de arrecadação com as casas de aposta (com vigência da proibição a partir de 6 de outubro), o governo projeta um gasto de até R$ 15 bilhões para o Desenrola 3.0, considerando deságio mínimo legal de 90%. Antes disso, já havia sido registrado custo extra de R$ 5,8 bilhões com aumento do piso do Bolsa Família.
Consultores e economistas destacam que a iniciativa do Desenrola tem efeito temporário: funcionou em fases anteriores como estímulo de curto prazo, mas não resolve causas estruturais do problema — juros elevados, renda estagnada e alta dos alimentos — e, por isso, tende a ser insuficiente diante do recorde de inadimplência. Para analistas da área, a combinação entre custo fiscal, pressa de anúncio e popularidade do tema dá tom eleitoral ao pacote.
Quanto às apostas, a medida reúne argumentos econômicos e de saúde pública: estudos apontam que jogadores têm risco maior de inadimplência em dívidas de cartão, e o Ministério da Saúde registra aumento expressivo na procura por tratamento para dependência em jogos online nos últimos anos. Pesquisa recente mostrou ampla aprovação popular à proibição — um fator que, para críticos, torna ainda mais evidente o oportunismo temporal da decisão.
O ponto central para a avaliação política e técnica é a relação custo-benefício em um momento fiscal apertado. Ao adotar medidas de efeito imediato e elevado custo, o governo corre o risco de comprometer margem para políticas estruturais futuras, ampliar desconfiança de agentes econômicos e transformar solução pontual em pressão sobre as contas públicas — justamente quando contrapartidas de longo prazo seriam necessárias.