O Ibovespa ganhou tração nas últimas semanas em boa parte por um fluxo líquido de estrangeiros que segue preferindo ativos brasileiros. Com investidores domésticos mais contidos — atraídos por uma taxa real ainda elevada —, o capital externo tem sido o motor por trás dos recordes do índice e da retomada do movimento de alta iniciada por volta de maio de 2025.

Estrategistas ouvidos avaliam que a percepção positiva vindoura do exterior não está atrelada apenas ao nome do presidente, mas à direção esperada da política econômica. Consultores como Bruno Takeo, da Potenza, e Gabriel Mollo, da Daycoval, destacam o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos como fator-chave: a remuneração doméstica ainda elevada torna o país atraente, parte do fluxo ficando em renda fixa e outra parcela migrando para ações.

Além dos juros, a alta do petróleo tem funcionado como vetor adicional — beneficiando pesos relevantes do Ibovespa e contribuindo para ajustes cambiais que favorecem o apetite por ativos locais. Ainda assim, analistas lembram que essa combinação gera vulnerabilidade: cortes de juros mais rápidos no exterior, reversões no preço do petróleo ou uma retirada abrupta de estrangeiros poderiam interromper o impulso. O Banco Central, na leitura do mercado, tende a agir com cautela e pode sinalizar pausa ao menor impacto inflacionário do petróleo.

No plano doméstico, a agenda fiscal aparece como o principal condicionante de médio prazo. Mesmo com dois candidatos considerados mais moderados e uma disputa menos volátil que em pleitos anteriores, investidores exigem clareza sobre a trajetória da dívida pública. Em síntese: o rali tem fundamento técnico e externo, mas a continuidade depende de manutenção do prêmio de juros, do comportamento das commodities e, sobretudo, de propostas fiscais críveis — elementos que revelarão se o fluxo estrangeiro se tornará base duradoura ou fonte de risco para o mercado.