O secretário de Energia dos EUA afirmou que, após ação coordenada com forças aliadas do Golfo, o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz voltou aos níveis pré-guerra e que milhões de barris passaram pela região em média semanal. O governo também ressaltou volumes adicionais que estariam sendo escoados por oleodutos, resultando em um total superior às médias anteriores ao conflito.
Dados de serviços privados de rastreamento e bancos, porém, pintam quadro distinto. A Kpler contabilizou apenas 84 trânsitos pelo estreito na semana referida — nove no domingo — muito aquém dos mais de 100 movimentos diários observados antes da guerra. O JPMorgan estima que o volume que efetivamente passa pela via esteja mais próximo de 4 milhões de barris por dia, longe dos quase 9 milhões citados pelo Departamento de Energia.
Há fatores que complicam a medição: alguns navios desativam transponders para sigilo operacional, e por isso a Kpler combina imagens de satélite com sinais de navegação. Do lado oficial, o Departamento de Energia afirma dispor dos melhores dados, em coordenação com o comando militar. É correto também reconhecer que oleodutos — como o Leste‑Oeste da Arábia Saudita — redirecionaram mais de 5 milhões de barris por dia para o Mar Vermelho, mas essa capacidade tem limites físicos.
A divergência entre as contagens públicas e as observações independentes tem efeitos práticos. Além de potencial impacto sobre preços e logística de refinarias, a discrepância compromete a mensagem de segurança de abastecimento que Washington tenta transmitir e exige transparência técnica. A inconsistência entre números oficiais e privados acende um alerta para agentes do mercado e para a credibilidade da informação pública em um momento de alta sensibilidade nas rotas de energia.