O economista‑chefe do FMI alertou que uma guerra prolongada no Oriente Médio pode obrigar bancos centrais a um aperto monetário muito mais severo do que aquele aplicado após a pandemia. Diferente do choque de 2022, quando uma economia aquecida amplificou o efeito de elevações relativas de juros, o cenário hoje combina folga econômica, mercado de trabalho mais fraco e oferta mais ampla de bens — fatores que mudam o canal de transmissão da política monetária.
Para a instituição, o risco chave é a desancoragem das expectativas de inflação: se famílias e empresas passarem a aceitar níveis mais altos de preços como permanentes, aumentos salariais e reajustes de preços se retroalimentam, exigindo resposta mais intensa dos bancos centrais. Na prática, isso significa decisões de política que podem frear atividade e elevar desemprego, um custo real para a população que os formuladores terão de ponderar.
O FMI revisou a projeção de crescimento global para 2026 para 3,1%, assumindo um conflito de curta duração e petróleo a US$ 82 o barril. Num cenário adverso, com preço médio a US$ 100, o crescimento cairia para 2,5%. No cenário severo, com petróleo a US$ 110 em 2026 e US$ 125 em 2027, o crescimento pode recuar a níveis próximos a 2%, patamar que a instituição classifica como limite entre expansão muito fraca e recessão global. A incerteza sobre a duração do conflito torna imprevisível o grau de aperto necessário.
A mensagem do FMI é dupla e dura: a inflação importada por commodities pressiona escolhas difíceis entre estabilizar preços e preservar crescimento, e o preço político e social dessas escolhas pode ser elevado. Para países emergentes exportadores ou importadores de energia, o choque complica decisões fiscais e monetárias simultâneas — um lembrete de que choques externos têm impacto direto nas contas públicas e na vida dos cidadãos, exigindo respostas coordenadas e prudentes.