O mercado voltou a ajustar para cima a projeção da inflação em 2024: o boletim Focus, do Banco Central, aponta IPCA acima de 5% e registra a 11ª semana consecutiva de alta nas expectativas. O movimento consolida um ambiente de preços mais tensionado e acende alerta sobre a capacidade do BC de ancorar expectativas sem ampliar custos para a economia.

Patrícia Krause, economista-chefe para a América Latina na Coface, reúne vetores externos e domésticos que elevam o risco de uma inflação mais alta. No front externo, o conflito no Oriente Médio mantém pressão sobre commodities energéticas; internamente, a defasagem nos preços de combustíveis — ainda ‘represados’ — e a alta de alimentos colocam combustível adicional na trajetória de alta dos índices.

“Se a gente não tem uma resolução do conflito, provavelmente vai reunião por reunião e podendo chegar a algo mais próximo de uns 14% do que os 13,25%.”

Para o IPCA-15, prévia oficial, Krause estima leitura mensal em torno de 0,6%, com elementos voláteis, como passagens aéreas, capazes de oscilar o número. A perspectiva de chegada do El Niño no segundo semestre é outro fator que tende a pressionar preços de alimentos, enquanto medidas fiscais anunciadas podem segurar, mas também prolongar, a desaceleração econômica prevista para o ano.

No terreno das políticas, o cenário complica a estratégia do Banco Central: o Focus projeta Selic em 13,25%, mas a economista alerta que os riscos elevam a probabilidade de taxa final mais alta. A combinação de inflação persistente e uma política monetária mais rígida tem custo direto sobre o crescimento — a Coface e o mercado convergem em torno de um PIB próximo de 1,9% para 2024 — e deixam claro que a margem para erro é reduzida.