O Relatório Focus do Banco Central voltou a ajustar para cima as expectativas de inflação pela segunda semana consecutiva e, simultaneamente, revisou para baixo as projeções de crescimento para 2026 e 2027. O movimento reflete um aumento do pessimismo entre agentes do mercado, que passaram a incorporar mais riscos na formação das expectativas.

Consultores e economistas ouvidos pelo BC destacaram que as previsões para 2027 já trazem um componente político relevante: sem definição clara sobre o rumo fiscal pós-eleições fica mais difícil desenhar cenários econômicos confiáveis. Em linhas gerais, os agentes indicam que a manutenção do atual padrão de gastos pode resultar em um 2027 mais fraco, enquanto um ajuste fiscal crível permitiria antecipar investimentos e acelerar a redução da taxa básica de juros.

Na avaliação do mercado, o problema estrutural permanece: juros elevados têm caráter permanente enquanto o Estado conservar a tendência de gastar acima da arrecadação. A credibilidade fiscal sofre com medidas que aliviam custos imediatos — como o subsídio estimado em cerca de R$ 7 bilhões por mês para combustíveis — ao mesmo tempo em que o governo declara compromisso com estabilidade, criando contradição entre discurso e prática e elevando o prêmio de risco.

Fatores externos agravam o quadro: a reação geopolítica do presidente dos EUA a um acordo com o Irã elevou o preço do petróleo em torno de 1%, enquanto a inflação americana se aproxima de 4%, pressionando juros globais. No Brasil, efeitos climáticos vinculados ao El Niño — com tempestades e impacto sobre lavouras como o café em Minas — adicionam pressões sobre alimentos. Juntos, esses elementos explicam por que expectativas de inflação e juros seguem resistentes, comprimindo consumo e limitando a recuperação do PIB.

O sinal enviado pelo Focus é político e econômico: sem ajuste fiscal crível e sinais claros de previsibilidade, o custo do financiamento permanecerá alto e o crescimento continuará sob pressão. Para o governo, o recado do mercado exige escolhas — priorizar ajuste e credibilidade ou conviver com taxas e menor dinamismo econômico —, com consequências reais para emprego, renda e contas públicas.