A pesquisa Focus, compilação semanal de projeções econômicas do mercado, trouxe nesta segunda-feira nova elevação na estimativa de inflação para 2026: 4,86%, a sétima alta consecutiva. Ao mesmo tempo, os analistas mantiveram a expectativa de um corte pequeno na taxa básica de juros na reunião do Copom desta semana, de 0,25 ponto percentual, o que deixaria a Selic em 14,5%. O movimento confirma leitura de cautela: redução gradual de juros, mas sem abrir mão do combate à inflação.
O resultado chama atenção porque a projeção de 4,86% supera o limite superior da banda de tolerância da meta oficial (meta central de 3,00% mais 1,5 ponto), que é 4,5%. Isso significa que, na visão do mercado, a inflação prevista para 2026 não estaria alinhada ao centro da meta e pressiona a credibilidade do ciclo de redução de juros, reduzindo o espaço de manobra do Banco Central caso a trajetória ascendente se confirme.
Do lado do crescimento, as estimativas para o PIB foram ajustadas marginalmente: 1,85% para este ano (redução de 0,01 p.p.) e 1,80% para o próximo. Esses números indicam um crescimento moderado, insuficiente para aliviar o impacto da inflação sobre renda e consumo em prazos curtos. Em conjunto, inflação em alta e atividade fraca complicam a combinação de política econômica que permita cortes mais rápidos sem risco de desancorar expectativas.
O mercado também revisou levemente a expectativa para o câmbio: o dólar é projetado a 5,25 reais no fim de 2026 (antes 5,30) e a 5,35 reais em 2027. A sinalização é de relativa estabilidade cambial nas projeções, mas sem conforto para reduzir pressões inflacionárias vindas do câmbio caso ocorram choques externos.
Politicamente, os números ampliam o desafio para o governo: a inflação projetada ainda acima da banda aumenta custos políticos e dificulta promessas de alívio rápido ao bolso do cidadão. Para o Comitê de Política Monetária, a previsão de corte de 0,25 p.p. parece uma opção calibrada — suficientemente simbólica para iniciar normalização, mas limitada pela necessidade de preservar ancoragem inflacionária. O Focus continua sendo um retrato do momento, não uma previsão definitiva, mas já emite sinais claros sobre a delicada interação entre inflação, crescimento e espaço fiscal.