A última edição do Boletim Focus, divulgada nesta segunda-feira (14), voltou a ajustar para baixo as expectativas do mercado. Os analistas agora projetam inflação de 4,9% para o ano corrente e crescimento do PIB de apenas 1,45% em 2026 — números que diferem sensivelmente das premissas do governo no projeto de lei orçamentária, que estima alta de 2,6% para o próximo ano.
Para a comentarista Rita Mundim, a projeção de 4,9% ainda é materialmente superior ao teto da meta de inflação, fixado em 4,5%, e distante do centro, em 3%. Mundim destaca que o efeito completo das atuais decisões de política monetária só tende a aparecer mais adiante, citando 2028 e 2029 como horizonte relevante para avaliar se a inflação volta ao centro da meta.
A diferença entre a previsão de mercado e a PLOA tem implicações imediatas para a elaboração orçamentária. Mundim alerta que usar um crescimento superestimado tende a inflar receitas projetadas e mascarar folgas fiscais inexistentes — uma fragilidade perigosa em ano eleitoral e com pouca margem para erros nas estimativas.
O quadro fiscal agrava a situação: a dívida bruta do país está em 82,5% do PIB, bem acima da média de 52% observada entre emergentes. Segundo Mundim, estabilizar esse endividamento até 2029 exigiria um superávit primário de cerca de 2,5% do PIB; a PLOA, no entanto, prevê apenas 0,1%, demonstrando um descompasso entre ambição e realidade fiscal que reduz a credibilidade das contas públicas.
No plano externo, a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos — com prêmios de longo prazo que já superaram 5,3% em alguns títulos — e a expectativa de um novo ajuste de 0,25 ponto percentual complicam o ambiente para fluxos de capital. Para o Brasil, isso significa menos espaço para cortes rápidos da Selic: o mercado aposta em um corte moderado até 13,75% no curto prazo, mas o Banco Central deve evitar comprometer sua trajetória até haver clareza sobre atividade, inflação e o risco fiscal. O resultado é um cenário em que previsões mais pessimistase a folga orçamentária limitada pressionam decisões econômicas e políticas.