Em texto distribuído na sexta-feira à noite, o economista José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo da campanha à reeleição de Lula, rompe com a tônica do ajuste estrito e rejeita o que chama de 'arrocho fiscal' como resposta principal ao endividamento. Gabrielli atribui ao custo financeiro — e não apenas ao crescimento dos gastos primários — a maior parte da expansão recente da dívida, e diz que metas de superávit primário superiores a 2% do PIB não devem ser impostas como regra fixa.
No documento, o autor sustenta que a elevação dos encargos com juros foi o motor mais relevante da subida da dívida nos últimos anos, e que a redução do déficit não pode recair exclusivamente sobre cortes de despesas que tendem a atingir os mais vulneráveis. A crítica é, em boa medida, dirigida à política monetária contracionista do BC, que, ao manter taxas elevadas, eleva o custo de sustentação da dívida e limita a capacidade de investimento do Estado.
Como alternativa ao aperto sobre renda e serviços públicos, Gabrielli defende medidas pelo lado da receita e por maior qualidade do gasto. Mantém a defesa dos pisos constitucionais de saúde e educação como conquistas sociais, mas propõe ganhos de eficiência, revisão de benefícios fiscais e subsídios sem retorno claro, e deslocamento de ônus tributário sobre o consumo para tributar de forma mais progressiva os rendimentos mais altos.
O texto ataca também a prática das emendas parlamentares, qualificadas como um 'sequestro' do orçamento: segundo o documento, as emendas atingiram R$ 61 bilhões em 2026 e representam mais de um quinto das despesas discricionárias da União. Gabrielli alerta que a pulverização desses recursos reduz o poder de planejamento do Executivo e prejudica investimentos de longo prazo em infraestrutura, ciência e inovação.
Politicamente, o posicionamento do coordenador do programa traz tensão interna: ao mesmo tempo em que reafirma compromissos sociais, ele aponta caminhos que passam por tributar o topo da pirâmide e por um desenho orçamentário menos fragmentado, o que exigirá articulação com o Congresso e negociação com o mercado. A letra do texto expõe um dilema central para a campanha e o governo: conciliar proteção das políticas sociais com a necessidade de conter o custo da dívida sem transferir o ônus aos mais pobres.