Em coletiva nesta segunda-feira, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reagiu com estranheza às críticas fiscais à PEC 65 atribuídas à própria equipe econômica. Segundo ele, o trecho da proposta que tem gerado debate foi concebido por membros dessa equipe e posteriormente consolidado pela Advocacia-Geral da União — uma observação que expõe inconsistência na comunicação interna do governo.

Galípolo também admitiu apoio a uma alternativa que obrigue o BC a absorver integralmente o resultado das variações contábeis. A declaração reacende um debate institucional: vincular o resultado da autarquia a oscilações patrimoniais, sobretudo cambiais, desloca risco para o Banco Central e levanta dúvidas sobre limites operacionais e sobre a fronteira entre independência técnica e ajustamento fiscal.

O presidente ressaltou que boa parte do resultado do BC decorre de variação cambial e não de custos operacionais da política monetária, argumento usado para explicar por que a autarquia toleraria assumir essas variações. Na prática, porém, a alternativa discutida pode produzir efeitos orçamentários e políticos — pressionando o Tesouro, alterando previsibilidade fiscal e complicando a coordenação entre ministérios.

A manifestação de Galípolo deixa claro que a discussão é menos técnica do que política: a aparente dissensão entre o discurso público e o conteúdo formal da proposta pode gerar desgaste no campo econômico e abrir espaço para críticas da oposição e do mercado sobre governança fiscal. Se a opção por transferir variações ao BC avançar, será preciso avaliar com precisão impactos jurídicos e fiscais antes de transformar a exceção em regra.