O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, converteu a audiência desta terça-feira (19) na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em uma defesa contundente da PEC que amplia a autonomia da autarquia. Em vez de concentrar a fala em política monetária, Galípolo usou o caso do Banco Master para ilustrar deficiência estrutural: insuficiência de pessoal, limitações para modernização e uma capacidade de supervisão que, segundo ele, não acompanha a velocidade do mercado.
Na exposição, o chefe da autoridade monetária comparou a capacidade do BC com a de pares estrangeiros e ressaltou a sobrecarga operacional — citou equipes que trabalham madrugada e fim de semana para manter o Pix em funcionamento — e a necessidade de poder comprar tecnologia e reagir com mais rapidez. A estratégia foi clara: transformar um episódio de crise em argumento para ampliar poderes e recursos, tese que analistas enxergam como oportunista e legítima ao mesmo tempo.
Politicamente, porém, a proposta tem caminho incerto. O relator, senador Plínio Valério (PSDB-AM), marcou leitura na CCJ para quarta (20), mas já sinalizou pedido de vista, o que deve adiar deliberações. Especialistas consultados pela imprensa, como a analista Lucinda Pinto, avaliam que a tramitação decisiva dificilmente avançará de forma significativa neste ano. Há, portanto, um custo político para forçar a pauta: pressão sobre o Congresso e necessidade de negociação em um ano eleitoral e fiscal sensível.
Apesar do foco institucional, Galípolo não deixou de reafirmar o compromisso com a meta de inflação. Ele e diretores do BC indicaram que a política monetária seguirá até que as expectativas voltem à meta; o relatório Focus projeta Selic em 13,25% para este ano e mediana do IPCA em 4,92% para 2026. A ofensiva pela PEC expõe uma consequência prática: sem mais capacidade técnica e operacional, o país aumenta sua vulnerabilidade a golpes e falhas; com autonomia, o BC ganha agilidade, mas abre debate sobre prestação de contas e limites democráticos — uma equação que o Congresso terá de resolver.