O otimismo registrado no mercado de renda fixa nas semanas recentes deu lugar a um tom mais cauteloso entre grandes gestoras. Em cartas a clientes, casas como Occam, Kinea e Armor relatam redução de posições aplicadas e aumento de proteções contra alta de juros, mesmo após sinais externos de alívio e a queda de 0,25 ponto percentual da Selic para 14,25%. A leitura comum é que parte do ganho potencial não chega ao Brasil porque fatores locais impedem uma reprecificação tão rápida quanto em outros mercados.
A Occam descreve um posicionamento mais conservador nas carteiras domésticas, com apostas táticas que protegem contra reprecificação da curva. A gestora critica a comunicação do Banco Central após o corte de junho — que, na avaliação dos gestores, alongou o horizonte de convergência da inflação e manteve aberta a possibilidade de extensão do ciclo — e vê na combinação de política e expectativas um elemento de incerteza a ser gerido com maior cautela.
A Kinea coloca o problema no terreno fiscal: fragilidades nas contas públicas, junto a questões estruturais do mercado de trabalho, crédito e câmbio, têm mantido um prêmio de risco elevado na curva de juros. Para a casa, isso limita a capacidade do país de capturar integralmente o alívio externo; enquanto outros mercados reprecificam curvas para baixo, o Brasil fica para trás. Em resposta, a gestora mantém posições curtas em juros curtos com proteção via inclinação da curva.
A Armor relata comportamento semelhante: atuação mais conservadora ao longo do ano, aumento de posição em juros reais de médio prazo e uso de hedge em taxas nominais, estratégia que ajudou a evitar o estresse de março. Mas o mercado, avaliam os gestores, "religou" a dinâmica fiscal após medidas expansionistas recentes e debates legislativos de alto impacto, o que reintroduz volatilidade nas expectativas e torna mais custoso para o Banco Central retomar um ritmo claro de cortes. A consequência prática é uma curva de juros que incorpora um novo patamar de equilíbrio, com efeitos sobre custo de financiamento público e privado e sobre a margem de manobra do governo.