O presidente-executivo da Kering, Luca de Meo, disse a investidores que o grupo planeja lançar óculos inteligentes sob a marca Gucci em parceria com o Google, com cronograma apontado para 2027. A declaração, feita em encontro em Florença e reportada pela Reuters, confirma a intenção de entrar num mercado já ocupado por parceiros fortes — em particular a aliança entre EssilorLuxottica e Meta, proprietária dos Ray‑Ban inteligentes. Porta‑vozes do Google não comentaram o assunto.
Para a Kering, o movimento é coerente com a estratégia anunciada de ampliar as divisões de óculos e joias, hoje responsáveis por uma fatia reduzida da receita do grupo. De Meo tem defendido que é preciso renovar a Gucci após anos de desempenho aquém do esperado e elevar a margem operacional para aproximá‑la de pares do setor de luxo. A aposta em acessórios tecnológicos surge como uma tentativa pragmática de diversificação e de criar fontes de receita menos sensíveis a modismos imediatos.
O projeto, porém, traz desafios claros. Entrar na frente dominada por EssilorLuxottica exige escala industrial, expertise em integração tecnológica e uma cadeia de distribuição alinhada ao universo do varejo ótico — elementos nos quais o parceiro tecnológico e o licenciante terão papel decisivo. Há também o risco de tensão entre inovação e identidade da Gucci: a marca precisa equilibrar apelo tecnológico com seus códigos estéticos clássicos, conforme reconhecido pela própria direção.
Do ponto de vista do mercado, a iniciativa envia sinais duplos: por um lado, demonstra que a Kering busca aumentar resiliência e margens sem depender apenas das categorias tradicionais de moda; por outro, amplia a pressão sobre a gestão para transformar intenção em resultado financeiro concreto. Se bem executada, a parceria pode reforçar receitas e imagem; se não, tende a alimentar ceticismo de investidores sobre a capacidade da empresa de reverter a trajetória da Gucci.